Vídeo mostra agentes que foram ao Catar infiltrados para registrar qualquer ação de protesto contra regime. Jornalista brasileira relata ameaças e agressões
Globo Esporte – O Irã se despediu da Copa do Mundo após três jogos, mas parte de sua torcida que foi ao Catar está com receio de voltar ao país. Torcedores que usaram a visibilidade do Mundial para protestar contra o atual governo acusam o regime de enviar espiões ao torneio para registrar qualquer manifestação. Houve registros de agressões e repressões aos atos.
O ge entrou em contato com três amigas iranianas que estiveram em todas as partidas da seleção na Copa do Mundo e registraram a ação desses agentes do governo do país. Os espiões tiraram fotos e gravaram quem exibisse homenagens a Mahsa Amini e pedidos por liberdade às mulheres. Apenas uma delas vive no Irã e andou a todo o tempo com bonés e roupas que tampavam o rosto.
As iranianas ouvidas pelo ge, que não querem se identificar, foram aos jogos contra Inglaterra, País de Gales e Estados Unidos com camisas pretas que continham, em língua curda, a frase: “Liberdade às vidas femininas”. Mahsa Amini, a jovem morta pela polícia moral iraniana, era curda.
– Eu não posso voltar ao Irã. Vivo em Dubai. Eles estão matando as pessoas no meu país. Matando mulheres. Usamos a Copa do Mundo como uma grande plataforma para exibir o que está acontecendo no Irã – diz uma delas, que afirmou ter sido seguida durante o jogo contra os Estados Unidos.
As iranianas relatam que perceberam a ação dos agentes infiltrados nas três partidas da seleção. No entanto, na última rodada, contra os Estados Unidos, notaram uma maior presença deles, possivelmente após o registro de manifestações nas duas partidas anteriores. Elas reiteraram a postura dos jogadores, que não cantaram o hino na primeira rodada.
– Nós apenas apoiamos os jogadores de futebol porque eles se recusaram a cantar o hino nacional no último jogo, então as pessoas mudaram de ideia para apoiá-los. Mas ainda somos contra o governo e avançamos fortemente com nosso movimento.
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Segundo elas, os espiões não se preocupavam em agir no sigilo e eram facilmente identificados por portarem a bandeira com o brasão de armas do país, adotada após a Revolução Islâmica de 1979. Uma torcedora levou ao jogo uma bandeira persa do Irã, sem o brasão, e teve a peça confiscada pelos guardas cataris. O item teria conotação política, segundo eles (veja abaixo).
A jornalista brasileira Domitila Becker acompanhou Irã x Estados Unidos entre torcedores iranianos e registrou agressões por parte dos possíveis agentes infiltrados do regime que governa o país. Até crianças e mulheres foram reprimidos.
Grande parte dos iranianos que se manifestaram na Copa do Mundo não vive no país. O ge conversou com torcedores do Irã residentes no Canadá, Londres, Dubai e no próprio Catar que tinham mensagens de protesto ao governo do país.
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Entenda os protestos no Irã
O Irã vive a maior onda de protestos no país desde 2009: milhares de pessoas estão nas ruas pelos direitos das mulheres iranianas. O estopim foi a prisão e morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos.
Mahsa foi detida capital Teerã após violar as regras iranianas sobre o uso de hijab, o lenço tipicamente islâmico que cobre a cabeça das mulheres. A polícia afirma que ela sofreu um infarto e não resistiu, porém, há denúncias que Mahsa teria sido atingida propositalmente na cabeça por um cassetete. Imagens da jovem desfalecendo na unidade policial foram divulgadas e revoltaram a população. A jovem ficou em coma, mas não resistiu.
O primeiro grande protesto aconteceu após o funeral de Mahsa, na cidade de Saqqez, no oeste do Irã. Nos protestos, as mulheres assumiram e ainda assumem grande protagonismo. Muitas andam com a cabeça descoberta, assim como Mahsa.
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As manifestações, com o passar do tempo, tomaram proporções gigantescas. O que começou por uma demanda de justiça por Mahsa e o direito das mulheres agora atinge novas exigências por mais liberdade. Existe, inclusive, grupos de cidadãos que querem a deposição do estado iraniano. Entre os manifestantes, é possível ver inclusive diversas bandeiras do império iraniano, extinguido nos anos 1980 após a revolução islâmica.
Recentemente, o governo iraniano autorizou que manifestantes sejam condenados à pena de morte. A primeira pessoa a receber a punição não teve seu nome divulgado, mas no último dia 14 de novembro, foi punida por “perturbar a ordem e a paz da comunidade e cometer um crime contra a segurança nacional”. As denúncias contra o manifestante também incluem “ser inimigo de Deus” e “destruição internacional”. O atual governo iraniano é descendente da revolução islâmica de 1979.
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